Artistas plásticos baianos falam sobre produção em tempos de crise sanitária: “Eu aproveitei o pior

“Todo artista tem que estar aonde o povo está”, diz a letra da bela canção “Nos Bailes da Vida”, composição de Fernando Brant e Milton Nascimento e imortalizada na voz do segundo. No entanto, a pandemia do novo coronavírus que se abateu sobre todo o mundo desde o início de 2020, fechou por tempo indeterminado as cortinas do espetáculo. Não tem palco e por consequência nem artista e público. Reinventar-se durante crise foi a saída encontrada por alguns desses atores do cenário artístico e cultural. Empreender-se se fez mais do que nunca e, antes de tudo, necessário.

Esse foi o caso do artista plástico, Leonel Mattos. Nascido em Coaraci, no interior da Bahia e com mais de cinquenta anos dedicados à Arte. Leonel fez sua primeira exposição individual em 1974, e traz em sua bagagem participação em Salões Oficiais de arte pelo Brasil e exterior, além de diversos prêmios.

“Arrebatei críticas importantes sobre o meu trabalho, tais como: Ferreira Gullar, Radha Abramo, Olívio Tavares de Araujo, Reynivaldo Brito, Matilde Matos, Wilson Rocha, César Romero Jacob Klintowitz, Olney Kruse, Enok Sacramento, Justino Marinho e outros. Em 1987, representei o Brasil em Paris a convite de Pietro Maria Bardi, com exposição no MASP e na capital francesa. Me considero realizado como artista. Ainda tenho mais alguma coisa para fazer, mas profissionalmente me sinto realizado. Sou um agitador cultural. Me encontro hoje com um ateliê no Salvador Shopping e outro no Santo Antônio Além do Carmo. Venho desenvolvendo pinturas e aquarelas. Passeio em várias linguagens, me dou ao luxo de fazer isso. Me sinto muito à vontade para produzir o que sinto e vejo. Meu veículo de comunicação é arte”, conta.

O período da pandemia para esse incansável e inquieto artista foi de intensa produção. Impedido de fazer as concorridas mostras e exposições, como costumeiramente vinha fazendo ao longo das últimas cinco décadas, Leonel resolveu recorrer aos meios virtuais para mostrar e vender a sua arte:

“Fiquei quinze dias abatido, sem fazer nada, pensando que todo mundo ia morrer e ninguém ia sobreviver para ver os meus trabalhos. Então pensei: para quê vou produzir se não vai ter ninguém para ver? Mas, felizmente apareceu um amigo meu, que perguntou o que eu estava fazendo e me encomendou um quadro. Esse quadro, feito por encomenda, me movimentou a pintar. Pintei muito nessa pandemia. Fiz uma produção enorme. Faço leilões online e graças adeus tudo que tenho feito tenho vendido. Nessa pandemia, por incrível que pareça, eu produzi muito e vendi muito. Acho que sou um felizardo”.

Mattos divide o mercado de Artes na Bahia, em três categorias:

“Existem três mercados. Um é do leigo que compra porque gosta e bota na sua casa. O mercado para colecionadores que compram como investimento. E por último, aqueles que compram porque gostam sem interesse de valorização, que é o mais honesto. O mercado de arte em Salvador está fora. Mercado de Arte é em Nova Iorque, na Europa, onde as pessoas realmente valorizam mais a fundo, analisando a obra de arte pelos seus interesses intrínsecos”, salienta.

Questionado sobre as políticas públicas de socorro ao setor artístico e cultural, nas esferas públicas, o artista plástico é taxativo:

“Até agora não vi nada para os artistas. Pelo menos eu não recebi nenhum comunicado. Isso é um absurdo, mas também não é surpresa. Esses gestores não estão interessados em nada. Se não fossem os artistas com essa força interior, ninguém seria artista nessa cidade. Eu diria você que é uma política de amizade, de tapinha nas costas. Nessa política eu não acredito, nunca acreditei e nunca fui beneficiado. As pessoas acabam não sendo valorizadas pelo que produzem, mas sim pelas amizades. Essa é a política pública que funciona.”.

“Tenho 50 anos de arte e hoje pinto por prazer. Gosto de ver as pessoas comprarem meu trabalho. Não tenho mais aquele interesse de guardar os quadros para fazer uma exposição, fazer uma Mostra, ficar na expectativa de vender tudo e de repente, só vender um ou dois quadros…Essa questão comercial eu já não tenho mais interesse. O que vão achar depois, se vai valorizar ou não, acho que é duvidoso. Como Van Gogh que só vendeu um quadro em vida e somente sabe-se lá depois de quantos anos é que foi valorizado. Acontece com muitos outros. Prefiro pintar, vender e deixar que seja avaliado no futuro”, finaliza.

Opinião um pouco mais ácida sobre a temática tem o também artista plástico, Washington Arléo. Natural do município de Ituberá, Washington vive somente da Arte há 42 anos, ora fazendo cenografia, comunicação visual, decoração, desenhando ou pintando. Antes de morar em Portugal e conquistar a Europa, Arléo presidiu a Associação dos Artistas Plásticos da Bahia, diretor da Galeria Solar Ferrão, além de participar do Conselho do Carnaval e de Desenvolvimento Urbano na Prefeitura de Salvador.

“Depois disso tudo fui morar em Portugal, onde fiz diversas exposições. Ainda possuo um estúdio no Porto, em Portugal. uma casa antiga, tombada. Hoje, tenho meu estúdio aqui no Pelourinho por ser o maior fluxo estrangeiro do Brasil. Tive atelier no Morumbi, na Vila Madalena e na Manoel da Nobrega, ambas em São Paulo. Tive a felicidade de nesse período na Europa, vender obras para grandes colecionadores, a ponto de vender para um colecionador que faz parte da revista Forbes, simplesmente um milionário de mais de 100 bilhões de dólares. Paulo Coelho tem duas obras minhas, dentre outras pessoas importantes”, explica.

Para Washington a desvalorização, a que, segundo ele, são submetidos os artistas, sobretudo dentro da Bahia é consequência da inexistência de profissionais capacitados para lídar com cultura dentro da esfera pública:

“Tenho gritado frequentemente requerendo apoio para os capoeiras, para as baianas, para os artistas e os pintores que fazem o Pelourinho existir. Realmente, a carência de apoio nesse momento de pandemia é dramática para nós que fazemos o Pelourinho. Era como se a gente não merecesse nenhum respeito. O dinheiro da Lei Aldir Blanc não chega para as artistas plásticos e pintores. Nós somos informais por natureza. As liberações de verbas são sempre para os mesmos.”.

Sobre sua produção durante a crise sanitária, Arléo define como um “fracasso”:

‘Na pandemia eu produzi menos e obras de menor porte pensando na pobreza intelectual e financeira do povo brasileiro, mesmo assim um fracasso total. O artista não pára de produzir. Como não tenho amizade e contato com empreendedores do mercado imobiliário para montar painéis e quadros vou vivendo de dinheiro de estrangeiros”.

“Desde março de 2020, quando eu vendi uma obra para um espanhol, que me pagou R$2500 euros, não vi mais um real em Salvador. Ontem recebi a notícia que vendi dois quadros grandes em Portugal. Tudo é vendido na Europa por que em Salvador existe um preconceito muito grande com os artistas que aqui se encontram. São exatamente esses artistas que representam a cultura da Bahia, quiçá do Brasil, para o mundo. A imagem que é levada para o mundo é a imagem dos artistas do Pelourinho. Então, minha vida como artista na pandemia foi de produção em menor escala e angustia, pois em Salvador, só vira notícia quem sai daqui.”, acrescenta.

Oportunidade – Baiano de Salvador e representante da nova geração de artistas plásticos baiano, embora já diversas vezes premiado. Exatos dez anos após sua primeira exposição individual, realizada em 2011, Franco acumula participações em exposições coletivas em Barcelona, Paris, Finlândia, Portugal, Egito, New York, Shangai, entre outras. Além disso, foi um dos artistas selecionados para a importante Bienal de Arte Contemporânea Europeia e latino-americana em Portugal e teve uma de suas obras expostas na Times Square, NY, na Exposição Artists Wanted. Destaque ainda para suas exposições individuais no Museu Rodin Bahia e no Museu de Arte da Bahia.

Embora tenha sido impacto durante o início da pandemia, sobretudo no aspecto emocional, Ricardo Franco é daqueles que viram no momento de crise a oportunidade de se reinventar.

“A vida é mais do que a nossa profissão. A preocupação e a incerteza geraram descargas emocionais que refletiam na minha arte. Durante esse período recebi a encomenda de um trabalho de 6m x 3m e isso acabou servindo como um empurrão. A própria imagem da tela metaforiza de alguma foram tudo isso que eu estava vivenciado”, conta

“Contudo, acho que a pandemia serviu para que as pessoas que estão dentro de casa agora trabalhando em home-office olhassem para as suas casas e automaticamente sentissem falta da arte que serve para ilustrar, para refletir, para compor… Não somente como decoração, pois o diálogo com a arte é necessário. As pessoas começaram a sentir falta não somente do abraço, mas também de uma conversa visual. Então, a pandemia para mim gerou resultados, a começar pelo edital do Itaú Cultural, onde acabei entre os 100 selecionados num universo de 8 mil inscritos. Além disso, da produção que eu tinha no ateliê 70% foi vendida. Estou falando no meu caso. Vendi mais do que no período normal. Isso é uma realidade”, completou o artista que esse ano foi contactado por uma grande editora de São Paulo e teve seu trabalho citado em livros de Filosofia e Ciências da Naturaza do ensino médio nas escolas públicas e particulares de todo o Brasil.

“Aproveite esse período para me posicionar e organizar minha vida virtual. Desenvolver novos projetos e estudar novas tecnologias com realidade aumentada, inteligência artificial. Eu aproveitei o pior da pandemia para transformar o melhor da minha arte. Mas é claro que eu não represento toda minha classe. Represento a minha realidade. Vejo muitos amigos artistas que reclamam com razão dessa falta de apoio. Quando falo apoio, falo do aspecto mais ´profissional para às artes. Acho que tem aquela coisa do status das artes ser uma coisa informal, de não ser profissional…Para o cara viver da arte o cara tem que ser muito empreendedor e sobreviver de arte na pandemia tem que ser muito pesquisador”, ressalta.

A produção artística, com a reinvenção dos atores desse cenário, bem como as políticas públicas também foram alvo de análise Ricardo que aponta a entrada desse segmento dentro do mercado virtual como um dos principais legados desse período: “Me inscrevi em projetos, tanto do governo quanto da prefeitura, e não fui contemplado. No entanto, vi coisas interessantes, muitas lives interessantes, muita produção boa. Vi artistas tendo que se reinventar durante a pandemia. Vi um processo de aceleração de entrada da arte no mercado online e no mercado virtual. Acredito que se não fosse a pandemia levaríamos uns três ou quatro anos para a gente chegar nesse atual estágio. O artista não pode se incomodar. Embora, existam esse perfil de artistas que necessitam da melancolia para produzir artisticamente. Eu conheço artistas que os caras sofrem, mas que do sofrimento deles sai o melhor da sua arte”.

Algo comparável aos poetas românticos da literatura, nomes como Castro Alves, Álvares de Azevedo e Casimiro de Abreu, falecidos prematuramente, contudo, deixando obras imortais. (sugestão).