Consultor em gestão defende reengenharia financeira e auditoria no Vitória


Foto: acervo pessoal/Rodrigo Santos

'Como pode um clube com pouca receita gastar tanto? São 100 contratações nos últimos três anos', questiona Rodrigo Santos


“É possível fazer uma reengenharia financeira no Vitória”. A afirmação resume a análise feita pelo professor em MBAs de Gestão Esportiva e doutor em Educação, Política e Gestão Rodrigo Santos. O executivo também foi diretor e conselheiro do clube, além de ser sócio clube há mais de 10 anos. Nesta reengenharia – modelo de gestão para reestruturação de empresas e organizações surgido no final do século passado -, Rodrigo Santos defende a atuação em três frentes: a auditoria do passado do clube, organização do momento atual em bases realistas e a criação de um grupo para a elaboração de projetos para a construção do futuro do clube.


“Como pode um clube com pouca receita gastar tanto? São 100 contratações nos últimos três anos”, assinala Rodrigo Santos, que foi consultor do clube nas gestões de Alexi Portela, Carlos Falcão, Epifânio Carneiro e Raimundo Viana. De acordo com o executivo, o atual momento é mais crítico – “futebol está mais caro” – mas a mudança é viável. Ele lembra que o grupo de trabalho para o Planejamento e Gestão que integrou ajudou o clube a evoluir da Série C (em 2006) até resultados nacionais expressivos, como o vice-campeonato da Copa do Brasil em 2010 e o quinto lugar no Brasileirão de 2013 – melhor resultado nordestino no nacional em pontos corridos.


O primeiro passo da reengenheria no Leão baiano seria “auditar o passado”, nas palavras do consultor.


“Você daria um recado claro ao mercado de que o jogo mudou”, destaca o executivo. O trabalho envolveria uma análise das contas feitas por uma instituição externa – de preferência uma das big four, as quatro principais empresas de contabilidade no mundo: KPMG, Deloitte, PwC e Ernst & Young (EY) -, no plano de sócios Sou Mais Vitória e nos contratos de transferência de direitos econômicos e federativos na divisão de base.

O resgate do passado, a seu ver, deve ser feito antes das novas eleições – marcadas para setembro de 2022 -, para que a nova presidência saiba o clube que vai conduzir. “Na campanha, todos têm solução para tudo. Depois, covardemente, passam a culpar o passado”, criticou. O processo eleitoral, propõe, deve ter acompanhamento de órgãos de controle, como o Tribunal Regional Eleitoral e o Ministério Público (MP-BA).


Presidente afastado

Perguntado pelo bahia.ba sobre o presidente afastado, Paulo Carneiro, Rodrigo Santos entende que deve-se esperar o trabalho de apuração do Conselho Deliberativo antes de se posicionar sobre a acusação de gestão temerária, mas comentou a gestão do dirigente.


“Paulo perdeu no campo tudo que podia, perdendo também a compostura, a capacidade de se comunicar, além de dinamitar todas as pontes, com a torcida, imprensa, elenco, funcionários, conselho e, até mesmo, com seus principais aliados”.

O consultor avalia que quem apoiou a eleição do atual presidente e deram sustentação a sua gestão, “sem exceção, são co-responsáveis por tudo, de bom ou ruim, da sua administração”. De acordo com ele, é preciso dar oportunidade a um nome novo, sobre o qual se inclui entre as possibilidades.


“É uma paixão, com a qual jamais me negaria a contribuir, desde que o projeto seja maior que qualquer indivíduo. Agora, apesar de, no discurso, a vontade de mudança ser quase uma unanimidade, vejo imperar, na prática, os mesmos puxadinhos, jeitinhos e conchavos de caciques, por baixo da mesa e com a luz apagada”, concluiu.


Folha realista


No momento atual, o gestor propõe uma folha mais realista, que possa ser honrada pelo clube.


“A obrigação do Vitória é ficar entre os dois do Campeonato Baiano e os quatro da Copa do Nordeste. Isso não é nem o mínimo necessário, mas nem o mínimo necessário o clube está fazendo”, pondera.

“A reconstrução do clube, se fizermos tudo certo e diferente, de agora em diante, vai demorar alguns anos e não será nada fácil”, opina, lembrando que Atlético de Alagoinhas e Bahia de Feira têm folhas de pessoal menores e fizeram a final do Baianão este ano.

Rodrigo Santos observa que acordos judiciais e extrajudiciais reduzem e podem escalonar a dívida do clube até a agremiação atingir seu pleno potencial esportivo, uma liderança continental no planejamento do consultor. Um novo trabalho de base, para voltar a revelar jogadores, daria um impulso no futebol. “É falso este discurso de extremos, entre quem quer contratar poucos e bons jogadores”, argumenta. “Pra subir, vamos precisar de jogadores mais experientes e bem preparados, junto com uma boa política de prospecção.”


Para o futuro, Rodrigo Santos projeta um clube sem uma dependência direta de recursos de venda de jogadores, sócios e direitos de transmissão da TV. Ele considera que equipes como o Flamengo vendem bem os jogadores (acima de R$ 100 milhões) porque pode recusar propostas que considere ruim. Para o Vitória chegar lá, o executivo identifica na valorização da marca e melhor uso do patrocínio como os melhores caminhos.


Uma iniciativa que apresenta é a da Soccer Valley, ou vale do futebol, uma espécie de Vale do Silício em projetos de tecnologia na área esportiva. Estrutura para abrigar este projeto o clube tem, acrescenta ele. “Seria o primeiro centro de inovação e tecnologias voltadas, exclusivamente, para o futebol, em parceria com Universidades, HUBs, Governos, Centros de Pesquisa e Investimentos (Venture Capital), pode dar uma dinâmica inédita e irreversível ao nosso clube”, explana.


*Matéria de autoria do repórter Adriano Villela e publicada originalmente no site Bahia.Ba