[Opinião] Clube-empresa e o momento do Vitória: luz no fim do túnel ou trem na direção contrária?



* Rodrigo Santos


Na área financeira se diz que "setor de pagamentos não recebe e setor de cobrança não paga". Já no campo da construção civil (principalmente obras públicas), por exemplo, está consagrado que "quem projeta não pode construir e quem constrói não pode projetar, pra si mesmo".


É, precisamente, o que acontece com o Vitória, neste momento de péssimas gestões, em sequência, com consequências nefastas nos gramados, diante da possibilidade de ingerência no assunto “clube-empresa”, que é um tema de relevância histórica e irreversível para a vida da instituição, daqueles que não estão dando conta nem das obrigações mínimas dentro da administração atual.

O Regime Centralizado de Execuções (RCE), que permite um reordenamento dos passivos e um recomeço, quase ‘do zero’ com novos investimentos, entre outros instrumentos recém criados pela legislação brasileira, traz uma janela de oportunidades inéditas, para os clubes, via de regra falidos, respirarem rapidamente novos ares e iniciarem uma retomada histórica, com possibilidade imediata de:


- Recuperação, judicial e extrajudicial;

- Captação de investidor(es) para Sociedade Anônima do Futebol (SAF);

- Sociedades com Propósitos Específicos (SPEs), Bolsas, Fundos, e Unidades Estratégicas de Negócios, envolvendo mecanismos de solidariedade e outros ativos, com foco no mercado de futuros, gerando dinheiro ‘vivo, na veia e na hora’;

- Reestruturação organizacional, com base no regime de Tributação Específica do Futebol (TEF), conforme lei 14.193/2021.


Entre muitos outros recursos possíveis, isso tudo ‘PODE’ representar uma grande chance de renascimento para o Vitória (não importa o momento ou divisão), especificamente, se – e somente se - lideranças capazes, legítimas e independentes, com relacionamento junto aos principais fundos de investimento e instituições especializadas, bem como conhecimento técnico e, principalmente, compromisso só com o clube, tocarem o processo, sob olhar de um observatório composto por sócios torcedores e organismos externos especializados, submetidos a instrumentos de governança consagrados. A Assembleia Geral de Sócios é soberana para garantir isso, inclusive.


Agora, imaginem, o mesmo grupo e os mesmos "chefes", que nos colocaram neste buraco, tomando decisões - formais e informais - quanto a um assunto irreversível que, tanto pode representar esperança no renascimento, quanto a morte da instituição?


Pensem se, com todo respeito, um "presidente" interino e uma comissão temporária, indicada pelos mesmos “cardeais” de sempre (imagina explicar estes termos para um investidor...), podem iniciar qualquer tratativa sobre algo dessa magnitude e seriedade?

Para muitos juristas, as últimas eleições gerais de 2019, além de eivadas de vícios, geraram mandatos válidos até março ou abril de 2022 (período de 3 anos) e não dezembro, como sustentam alguns. Além disso, dois dos três conselhos eleitos, já foram totalmente desfeitos e/ou refeitos, restando a formação original do Conselho Deliberativo, tão somente. Qual a segurança, jurídica e organizacional, pode-se passar para qualquer investidor sério, para aportar no Vitória, diante de um cenário como este?


Não há qualquer legitimidade em "gestores transitórios", comissões formadas por estes, ou "ajudadores de ocasião", colocados sob influência dos mesmos chefes de sempre que, além de não entenderem nada do assunto, ocupam-se mais do que deveriam de temas outros, alheios ao interesse coletivo. Os que estão transitoriamente devem ocupar-se, tão somente, de ações, igualmente, transitórias, como a obrigatória permanência na Série B; o reequilíbrio do fluxo de caixa; e a manutenção do nosso patrimônio, sem aumentar um centavo do, já descontrolado, passivo que temos.


Assuntos como auditoria integral, modelagem de novas unidades de negócio, SAF, entre outros, precisam ser tratados por uma Autoridade Constituída com Propósito Específico (ACPE), com regramento próprio bem definido, deliberação pela AGE e, composta por especialistas que, além de rubro-negros "raiz":

1- Não tenham tido qualquer relação diretiva ou vínculo informal para este fim, no mínimo, nos últimos 5 anos da instituição;

2- Tenham notória especialização e comprovada experiência no segmento;

3- Estejam, formalmente, submetidos a regras rígidas de governança e compliance;

4 - Gerenciem, subordinados à Assembleia Geral de Sócios e com orçamento próprio (garantia de autonomia), etapas fundamentais, como: auditoria tocada por uma das Big Four; diagnóstico de ativos, passivos, equity e valuation; modelagem organizacional e engenharia econômico-financeira; captação de parcerias e fundos de investimentos.


Tudo, harmônico com as instâncias do clube, com absoluta transparência e isenção, contando com apoio de organismos como Ministério Público e afins.


Este ‘império dos sócios’ é, além de condição para o Vitória ser atrativo e seguro aos investidores externos, a garantia de preservação da força/integridade da instituição, até as próximas eleições gerais (também auditadas) no Vitória, podendo representar um ciclo virtuoso, tanto para o ECV, quanto para uma eventual nova organização derivada deste esforço.


Daí sim. Poderemos ostentar, rapidamente, dinheiro no caixa, vergonha na cara, craques em campo, orgulho no peito e troféus na galeria!


As oportunidades existem. Mas, a depender de quem as toque e de como sejam tocadas, podem representar tanto uma luz no fim do túnel, quanto um trem em sentido contrário.


É refundar agora, ou lamentar para sempre!


* Rodrigo Santos é Sócio TORCEDOR e ex-conselheiro do Vitória; Doutor em Educação, Política e Gestão; Professor de MBAs e Consultor Internacional em Gestão Esportiva, entre outras áreas.