[Opinião] Largo das Baianas: Sobra modernidade, arrojo… Falta poesia.

Por Tiago Queiróz*

Saudades de outrora quando os grandes protagonistas do famoso Largos das Baianas, em Amaralina, eram os vendedores de água de coco e as baianas de acarajé… As quituteiras vinham em bando, eram dezenas e vendiam no antigo quiosque seus concorridos acarajés, abarás… As águas de coco poderiam ser compradas em barracas igualmente forradas de palha. Não tinha luxo, mas tinha charme, tradição…

No novo Largo das Baianas foram erguidas suntuosas e impessoais estruturas de madeiras que substituíram os velhos quiosques. Arquitetura desprovida de sentimentos, valores históricos e sem nenhum pertencimento às pessoas que ocupam o espaço e à própria história do largo. Sobra modernidade, arrojo… Falta poesia.

Hoje, quase quatro meses após entrega da obra, as estruturas seguem vazias, sem a presença das suas grandes protagonistas, mas que historicamente são relegadas ao esquecimento. O largo segue tão frio quanto uma noite de inverno europeu, sem o calor do dendê, da graça e do afeto da sua gente. Não tem água de coco, não tem acarajé, não tem abará, nem caruru e nem vatapá. Não tem roda de capoeira… Na praça que leva o nome de Metre Bozó Preto, a placa é a única referência à famosa dança de origem africana. Não tem martelo, não tem meia-lua de frente, benção, ginga ou cabeçada. Não tem angola e nem regional…

As baianas seguem à míngua, em sua maioria dentro de casa, deprimidas, recolhidas ao seu banzo e à espera do socorro para voltar ao local de trabalho. Falta boa vontade e sensibilidade por parte do poder público. Uma humilhante esmola de R$270, oferecida pela Prefeitura é cinicamente chamada de auxílio. Os vendedores de coco, por sua vez, continuam espremidos em estruturas decadentes e improvisadas, relegados à própria sorte pensando em como arcar com as altas taxas que serão cobradas para trabalhar no novo equipamento.

Do alto, a “baiana azul de Amaralina”, obra do artista plástico Bel Borba, segue triste, diante do grande vazio que toma conta do antes poético e romântico lugar…

*Tiago Queiróz é Jornalista.

Texto publicado originalmente no site Nordesteusou.