Pandemia x Cultura: atores do cenário cultural de Salvador falam sobre situação do setor durante a c

O músico Betho Wilson e o produtor cultural, Fernando Mariano relatam suas experiências e desafios durante a pandemia do novo coronavírus

Fernando Mariano e Betho Wilson. O primeiro publicitário, produtor cultural e empresário. O segundo músico profissional. Duas realidades distintas e igualmente impactadas por conta da pandemia. Fernando atua no mercado cultural de Salvador desde 2008. Iniciou sua carreira no participando ativamente da fundação da Cooperativa de Profissionais da Música da Bahia e da Federação Nacional de Cooperativas de Música. Mariano é proprietário da Inmagina, agência de comunicação digital e da casa de eventos Commons Studio Bar, espaço cultural situado no coração do bairro do Rio Vermelho, por onde já passaram mais de 1000 eventos. Ao longo da última década, o produtor  participou direta ou indiretamente  de mais de 100 projetos culturais.

Nascido e criado no bairro do Nordeste de Amaralina, Wilson Roberto ou apenas “Betho Wilson” é hoje cidadão do mundo. Seu primeiro disco alcançou a expressiva marca de 80 mil downloads em Nova Iorque e acabou sendo pauta de matéria na famosa revista Rolling Stones. Betho, hoje com 40 anos, vive da música desde os 19. Seja como músico de palco, de estúdio, compositor, produtor, arranjador ou até professor. Antes da pandemia, costumava fazer cerca de 8 apresentações mensais com um aumento significativo na alta estação primavera/verão. Entre março e dezembro de 2020 se apresentou quatro vezes.  Além dos lucros obtidos com sua empresa de jingles, Wilson Roberto foi contemplado pelo auxílio emergencial que segundo ele, “embora pouco”, ajudou a sanar parte das suas demandas.

Betho Wilson / Foto: Diana Carvalho @d0carvalho

“Os efeitos mais claros foram de cunho emocional, um homem sem trabalho é um homem sem honra, assim canta Raimundo Fagner, e, assim me vi nesse período. Também houve prejuízo na qualidade de vida que precisou passar por uma reformulação total no plano do consumo, abrindo mão de produtos de mais qualidade do dia à dia por produtos mais simples para não faltar nada à família”, ressalta o artista.

Com Fernando a coisa foi igualmente dolorosa e desafiadora. No primeiro aspecto pelo fato de se ser obrigado a fechar o seu negócio, a Commons, apenas sete anos após a inauguração. No tocando ao desafio, a sua necessidade de se reinventar durante a crise.

“A pandemia foi um grande impacto, afinal ver o seu negócio fechar as portas depois de sete anos foi doloroso. Tive prejuízo financeiro e insegurança. Mas como sempre fui um cara do digital, consegui me reinventar rápido focando na realização de serviços de gestão de canais de YouTube, produção e coordenação de lives artísticas entre outras demandas que cresceram bastante nessa área de internet”, conta o publicitário.

Fernando vê como “devastador” os efeitos da pandemia no cenário cultural da Bahia e é cauteloso ao analisar os horizontes futuros para o setor:

“Casas de shows, centros culturais, bibliotecas e outros espaços dedicados à cultura fechados, exposições e espetáculos cancelados, e toda a pirâmide de produção atingida. Depois de um ano de pandemia, o setor cultural e de eventos segue desassistido e sem esperança de dias melhores. Técnicos e roadies, artistas e produtores, empresários e agentes, todos com um acúmulo de prejuízo e sem perspectivas. O auxílio emergencial aliviou, mas não foi o suficiente. Durante a pandemia tivemos os editais da Lei Aldir Blanc que oxigenaram um pouco o mercado, mas não foi o suficiente.”.

Fernando Mariano – Foto: Reprodução Instagram

“Não é possível ter prognósticos muito positivos sobre o que acontecerá num futuro próximo na cena cultural. Demora na vacinação, relaxamento no isolamento e entre outros fatores, só retardam a retomada do setor. Fomos os primeiros a fechar e seremos os últimos a abrir, e quando abrir, será com lotação reduzida. Acho que tem luz sim, mas ainda estamos longe de sair desse túnel. Precisamos de medidas específicas para auxiliar nesse momento, ações emergenciais e temporárias para gerar compensação em contrapartida às medidas de isolamento. Sem isso o setor será asfixiado.”, completa Mariano.

Provocado a avaliar ação do poder público no sentido de socorrer aos artistas, Betho Wilson afirma ver ainda o cenário “muito turvo”, sobretudo quando comparando com outros países onde o combate ao coronavírus, segundo ele, foi levado muito a sério:

“A impressão que tenho é que fomos levados ao mais extremo abismo do negacionismo pelo simples fato de ideologias políticas estarem acima do bem estar da população. Observei uma classe política confusa com algumas poucas exceções que agiram com mais lucidez. E agora um ano após o primeiro caso temos um grande déficit no tocante a vacinas mesmo o país sendo reconhecido mundialmente por seu grande potencial de imunização”.

Betho Wilson em ação

Com grande aceitação, sobretudo entre o público alternativo da cidade, a Commons teve o seu fechamento lamentado pelos frequentadores. De acordo com Fernando, muitas foram as manifestações por conta da suspensão das atividades no espaço. Perguntado sobre o futuro da casa, o publicitário se restringe a explicar que “se voltarmos, será diferente”.

“O mundo será diferente também. Vamos esperar para ver o que acontece no Brasil e se dá para empreender novamente, mas agora é esperar a vacina, é nossa única solução”.

Já Betho se apega a uma única certeza, surgida ainda nos tempos de garoto nas rodas de samba junino do Nordeste de Amaralina: “sempre tive é terei a certeza de que eu nasci da música e para a música”.

“Eu não estou músico, eu sou músico e muito me orgulho desse dom maravilhoso que recebi. Quando penso no presente, no agora, confesso que dá uma insegurança terrível pois não sei o que estar por vir, são grandes as chances de passar mais um ano sem poder tocar, fato! Porém busquei me organizar na vida como artista e amplie o leque de ações dentro da própria música pois ser músico está par além de cantar e/ou tocar, música é um negócio e apoia quase 20 anos atuando nessa frente entendi que posso estar em todos as peças dessa engrenagem. É difícil, mas não é impossível. E deixo um conselho para os meus iguais dá arte, se reinventem! Vejam sua arte comum negócio. A música está em tudo: jingle, trilha, sala de aula, e  não apenas no palco”.