Pandemia x depressão: saiba como a crise sanitária e humanitária vem contribuindo para proliferação

“Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro” – Sigmund Freud

De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde cerca de 300 milhões de pessoas em todo o mundo são acometidas por algum tipo de depressão. Homens e mulheres de diferentes idades, estilos de vida e classe social. Ainda segundo a OMS, é a principal causa de incapacidade em todo o mundo e contribui de forma importante para a carga global de doenças. No Brasil, 12 milhões de pessoas, o que representa 5,8% da população, sofre ou já sofreu algum sintoma da doença que é apontada pelos especialistas como um dos males da vida contemporânea, marcada por grande pressão, competitividade, desigualdades dentre outras coisas. A pandemia do novo coronavírus fez crescer de forma exponencial os casos de depressão em todo mundo. Segundo psiquiatras e psicólogos, episódios de ansiedade e transtornos mentais invadiram a vida das pessoas que foram obrigadas a viver confinadas sob as imposições do chamado “novo normal”. A crise econômica e onda de desemprego, frutos da pandemia, também colaboram de forma decisiva para o crescimento no número de deprimidos.

Convivendo com o fantasma da depressão há cerca de dez anos, o cirurgião dentista Maurício Fonseca*, 44 anos, viu novamente a doença interferir no diretamente no seu dia à dia.

“No início fiz como quase todos os profissionais da minha área e parei de trabalhar com receio da doença. Tudo era muito incipiente e as informações eram tão conflitantes que não pretendia arriscar. Só saia de casa pra ir ao mercado e farmácia. E, mesmo assim, com um pote de álcool na mão, passando a cada toque que dava em alguma superfície e devidamente protegido com máscara. O mundo exterior ficou muito ameaçador de forma que a ansiedade ao sair de casa começou a ficar extremamente alta. Ver as notícias na mídia e o clima de fim de mundo que se instaurou começou a trazer de volta vários sintomas que estavam dormentes. Perder pessoas conhecidas para a doença também não ajudou muito”, relata o odontólogo.

Mesmo seguindo os protocolos e tomando todos os cuidados, Maurício, a esposa e o filho de quatro anos, acabaram contaminados pela covid-19. “Por sorte, nossos sintomas foram tão leves que passaria em branco se fosse em outra época. Meu filho ter uma febre suave por três dias, eu tive diarreia uma noite e minha esposa teve um pouco de tudo. Mas, fizemos o exame e deu positivo. Passamos o período de quarentena em isolamento total do mundo e, quando passou, a lógica me dizia que já não precisava temer o mundo exterior, mas não era isso que a mente me passava. O medo permanecia.”, explica.

De acordo com Maurício a doença passou a dar os primeiros sinais mais fortes, em meados de julho, quando os profissionais da sua área começaram a se reunir para planejar os protocolos para um retorno mais seguro ao trabalho já em agosto.

“Foi, justamente nesse período, que tive uma nova crise. Uma situação específica me fez reviver o passado e entrei em pânico. Toda tensão e estresse acumulados durante a pandemia explodiram. A bola de neve, virou uma avalanche. Eu me isolava no quarto, chorando, na maioria das vezes, incapaz de me movimentar pra nada. Sons altos me deixavam tenso e até o vento me incomodava. Mesmo nós melhores momentos do dia, eu não conseguia nem ir na varanda do apartamento. Cheguei a tentar sair, uma vez, mas foi apavorante. Parecia que o mundo queria me engolir”, lembra.

“Dessa vez, o tratamento não demorou. Afinal, eu já sabia o que tinha. Foi uma questão de pouco tempo para iniciar medicamentos com psiquiatras e terapia com psicólogos. Os sintomas foram, lentamente, suavizando. Entretanto, uns cinco meses depois, ainda não estou recuperado. Mal consigo sair em ambientes abertos, evito ao máximo contato com pessoas desconhecidas e, consequentemente, voltar ao trabalho parece ser um martírio que, no momento, me sinto incapaz”, completou.

Foto: Flickr/ryan melaugh

Histórico – O episódio acima narrado não foi a primeira crise de Maurício. Ele teve sua primeira crise depressiva há cerca de dez anos. Entretanto, embora a culminância da doença tenha ocorrido na idade adulta, Maurício enxerga que o transtorno já vivia adormecido em sua mente desde a infância, quando segundo ele, já apresentava algumas características que são comuns às pessoas depressivas.

“A sensação que tenho é que ela sempre esteve lá dentro e soltava pequenas doses ao longo dos anos. Insônia, por exemplo. Perdi a conta de quantas noites insones eu passei enquanto criança. Baixa auto estima também. Sempre esteve comigo desde que me entendo por gente. Passar a pré adolescência acima do peso também não ajudou muito. Na escola, fim dos anos 80 e início dos 90, se não sofresse bullying (tema que não era tratado com seriedade na época) por ser “gordo”, sofria por ser um bom aluno, cujo termo pejorativo era CDF. Já a adolescência e início da vida adulta, as coisas melhoraram, de certa forma e a maioria dessas coisas se atenuaram, apesar de não desaparecerem. Aliviaram de forma que eu não sentia que havia nada errado comigo.”, lembra.

De acordo com o odontólogo, que é casado e pai de um garoto de quatro anos, a coisa começou a sair do controle logo depois de ele completar trinta anos. A Síndrome do Pânico chegou de forma avassaladora em sua vida mudando drasticamente sua rotina.

“Eu já era profissional, casado e, de uma hora pra outra, comecei a temer sair para o trabalho. Algumas vezes, acordava sem nenhum tipo de sintoma e, ao, literalmente, atravessar o portão de casa, sentia palpitações e uma sensação de que algo ia dar errado. Só melhorava quando entrava em casa novamente. Eu acreditava que fosse algum mal estar e não ia para o trabalho. Isso foi ficando cada vez mais frequente até que passei uma semana inteira em casa sem trabalhar. Foi nessa época que a depressão atingiu seu estado máximo e alertou todos ao meu redor”, relata Maurício.

“Ainda não chegamos ao fim de tudo, mas, se tem algo que posso afirmar e devo levar adiante é: “Nunca mais ficar longe de um psiquiatra e um psicólogo, mesmo que eu me sinta plenamente recuperado.” Se eu não tivesse interrompido o tratamento, acredito que não estaria no estado em que me encontro”, finaliza.

Profissional – A psicóloga Luciana Caldas explica que o isolamento social, a mudança brusca de rotina e a falta de previsibilidade em relação ao que pode acontecer – aspectos associados ao estado de pandemia – são fatores de risco para transtornos de diversas ordens, inclusive os transtornos do humor. “Na prática, sentimos nitidamente o aumento do número de casos de depressão, além dos transtornos de ansiedade, compulsão alimentar, transtorno obsessivo compulsivo, estresse pós-traumático, dependência de eletrônicos e uso em excesso de substâncias psicoativas (álcool e outras drogas)”, salienta a profissional.

De acordo com Luciana, situações como a de Maurício podem ser recorrentes durante a pandemia, uma vez que já existe uma predisposição: “Por isso, pessoas com transtornos mentais ou com histórico familiar de transtorno mental precisam estar mais atentas e buscar tratamento preventivo com psicólogo e psiquiatra. A psicoterapia é fundamental para o tratamento, e pode ser realizada na modalidade online, além da manutenção de práticas que garantam bem estar. Em alguns casos, o uso de medicação é recomendado, por isso é aconselhável o acompanhamento com o psiquiatra.”.

Outro importante alerta levantado pela psicóloga diz respeito a relação entre a depressão e o sistema imunológico, onde pessoas deprimidas poderiam estar mais suscetíveis aos casos mais graves de covid-19. “Pacientes com depressão podem apresentar alteração nos sistemas endócrino e imune, tornando-os mais susceptíveis a infecções. Algumas linhas de estudos já apontam para a correlação de pacientes psiquiátricos com o diagnóstico de COVID, o que leva a inserção desse público na lista de fatores de risco. Com a evolução das pesquisas será possível ter uma ideia mais clara dessa correspondência e pensar em medidas de saúde protetivas”, explica.

Por fim, Luciana dá algumas dicas de como tentar manter a saúde mental em tempos de pandemia: “Atividade física, técnicas de relaxamento, manter uma rotina, priorizar momentos de lazer, manter contato (mesmo que virtual) com parentes e amigos, evitar o excesso de informações negativas sobre a pandemia, organizar melhor o tempo para evitar sobrecarga e desgaste e buscar ajuda profissional caso perceba que o seu estado mental está causando sofrimento intenso, prejuízo em relação as atividades do cotidiano (de estudo, trabalho e lazer) ou está interferindo no relacionamento com as pessoas”.

*Nome fictício